segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Feijão e poesia


no caixa do supermercado
a moça era um enfeite:
olhos cinza-azulados
lábios carnudos, cabelos negros
um decote...

o rapaz colocou na esteira de borracha preta
um quilo de sal
uma lata de óleo
um pacote de arroz
um saco de feijão
e pediu
"põe também uma porção de poesia"

ela sorriu, dentes brancos, brancos...
ele disse: "obrigado, pode cobrar"

ela encabulou e avermelhou
ele, tímido em inusitada ousadia,
quase derreteu

até hoje comem juntos
o melhor feijão com arroz do mundo
até que acabe...

sábado, 20 de dezembro de 2008

miudezas

na esquina poeirenta,
dois velhos cordiais -
um tem muito pouco;
o outro, muito mais:
diferentes tão iguais!

um, andrajoso;
o outro, bem trajado.
um, biscateiro;
o outro, aposentado.

- se não chove, quem respira?
- pois, é! e o calor!?

miudezas, reminescências...
prosa contra o tempo,
que vai liquidando aos poucos:
resistência aos solavancos
e a tantos ouvidos moucos.

passa um carro, passa outro,
um ônibus, agora;
uma mulher carregando
uma criança que chora.
os velhos olham.
os velhos olham-se.
como o relógio, nada pára.
também eles passam, devagar,
olhando e conversando miudezas e reminescências.

sábado, 19 de julho de 2008

O bar e a cidade

Uma coisa é dizer impunemente: “O bar é uma instituição nacional”. E sair acelerado, em busca de um, antes que as mesas se esgotem. Outra é sentir na pele a falta de um bar.

Macau (ex-colônia portuguesa na China, vizinha de Hong Kong). Em todo lugar que se entra é, antes de tudo, servido um chá muito quente, obviamente sem açúcar. O mesmo se dá num – como dizer? bar não é... – estabelecimento comercial semelhante a um bar em sua estrutura e forma de atendimento... Chega-se com os amigos, o indefectível chá é servido, faz-se o pedido: duas Cintra (loira, mas com bigode, como todo português tradicional que se preze). E a gelada chega antes que os copos de chá sejam esvaziados. Uma cena!

Aí a conversa engrena, enquanto se espera as pessoas começarem a chegar para o happy hour. Motonetas daqui, motonetas dali (há milhares por lá, em cada rua), carrões para lá, carrões para cá (dificilmente se pode ver tantos ao mesmo tempo) e nada: chá quente esfriando, cerveja gelada esquentando, atarantamento coletivo sendo revelado em meio às conversas.

Já é tempo de comer alguma coisa, o que passa a ser feito depois de rapidamente atendido o pedido, mas sem qualquer alimento para os olhos. Lá se foram todas as garotas miúdas e de cabelos negros com suas motonetas. As ruas estão desertas. Não dá nem para ficar falando da vida alheia. Todos estão tão longe. A alternativa é o cassino, enorme, no mesmo edifício em que ficam as mulheres de diversas nacionalidades, oferecidas em vitrines.

Que falta faz um bar dos bons – esse latino meio termo entre o sossego do lar (lugar a que se pertence) e a completa libertinagem (terra por se conquistar) – para quem não é anjo nem demônio, acendendo uma vela para cá, outra para lá, sem fanatismos, que ninguém é de ferro.

O bar é, primeiro, um ambiente específico, um lugar. Não pode ser um restaurante, não deve submeter seus freqüentadores à fome ou à gula gastronômica. Também não pode ser uma boate ou night-club, mesmo que o público que para ali se desloca o faça com objetivos muito parecidos: encontros, trocas de olhares, conversas em meio ao burburinho – um faz de conta que esconde, não muito, intenções.

O público do bar deve ser variado, senão o usuário por excelência – aquele que quer uma beberagem, jogar conversa fora e até falar sério sem parecer que o faz, enquanto faz sério o que parece não estar fazendo – fica privado da necessária paisagem humana heterogênea. Mas essa paisagem, ou melhor, essas pessoas que ficam ao redor, vendo e sendo vistas, não podem ser muito ruidosas, o que torna impeditivo o ato de conversar. Entretanto, sem aquele burburinho que uma somatória de muitas conversas produz, o bar não tem a menor graça.

É bom que no bar haja gente para ser vista, para ensejar comentários maldosos e também para provocar uma certa inveja (inveja e maledicência: pecados capitais em miniatura, quando praticados no bar). Bar não é igreja. Depois o freqüentador devoto vai a uma e se confessa, pondo a alma em suficiente leveza para poder comungar. Além disso, é sempre possível pedir “uma para o santo” no início e no fim da sessão pecaminosa.

E a música no bar? Pois é, objeto de controvérsias por aqui. Mas de briga numa casa de fados em Portugal, onde o silêncio é exigido da platéia que sorve o seu porto. Não muito diferente do que acontece numa casa de tango de “los hermanos” portenhos. A quem pertence, enfim, por aqui, o momento da canção: ao intérprete ou ao público?

Bar não é casa de espetáculos, assim, os freqüentadores não são um público propriamente dito. E os cantores e músicos não são intérpretes no sentido tradicional da expressão. Eles – instrumentistas, cantores e ouvintes - são parte de um todo, unidos pelo encanto da música, sem estarem no lugar, entretanto, exatamente para mostrar suas habilidades ou para aprecia-las formalmente. Um mistério que não precisa ser desvendado, senão perde a graça.

Coisa mundana, mas profundamente poética, senão quase religiosa, o bar é uma peça fundamental da cidade latina, oportunizando uma maneira específica de sociabilidade que se recusa a enquadrar-se nos cânones do formal, mas que também não abre mão do respeito a certas tradições. Felizes as cidades que possuem bares tradicionais, dos quais cuidam como de vetustas instituições, não admitindo que venham a desaparecer.

Cidade sem bar é um deserto. Bares sem identidade não fazem mais do que povoar o deserto com cactos sem graça.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Os artífices da cidade

A cidade é um todo complexo, em movimento e constante transformação. Impossível dela um retrato ou síntese que capte todo o seu esplendor e todas as suas mazelas. Sínteses e retratos são fragmentos, destacando diferentes pontos de vista. Um vôo panorâmico ou uma foto de satélite (do tipo Google Earth, hoje acessível a qualquer um) permite ver a distribuição dos prédios, o traçado das ruas, os telhados, os espaços ocupados e não ocupados, as curvas dos rios. Um cartão postal ou um quadro realça uma vista bonita ou uma construção majestosa. Alguns parágrafos de um conto ou romance rememoram um lugar e acontecimentos nele ocorridos. Uma música evoca um encontro numa praça do passado. Uma peça de teatro recria relações que marcaram ou marcam um tempo.

Quanto mais retratada, mais vezes objeto de obras de arte, mais se afirma uma cidade, mais se fortalece sua identidade. Assim, uma cidade não se constrói somente com pedra e aço mas também com visões e laços. Também os diferentes tipos de artistas são artífices da cidade, juntamente com os arquitetos, engenheiros, pedreiros, mestres-de-obra e todo um povo em sua faina diária.

Há muitas formas de retratar uma cidade, há muitos artifícios que podem ser utilizados para resgatar os habitantes do entorpecimento quotidiano que os leva a perder a noção do valor e da beleza de certos detalhes da vida urbana. Uma espetáculo teatral é um dos meios para isso. E é um dos meios mais intensos, pela força intrínseca que a arte cênica adquire ao combinar ambiente, música, gestos, fala, tudo como se os fatos estivessem se desenrolando ali, diante do expectador em carne e osso.

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1857: estréia “Rio de Janeiro: verso e reverso”, surpreendente comédia de José de Alencar (o mesmo de “O guarani”). Cenário (de Mário Bragaldi): rua do Ouvidor, esquina com a rua da Quitanda. Personagens: gente conhecida do público em geral, levemente disfarçada em personagens de comportamento exagerado e tornado cômico pelos atores. Resultado: risos e protestos, sucesso de público e, fundamentalmente, um reforço da identidade da então capital do país. Reforço amplificado pela crítica e discussões nos jornais.

O enredo da peça, saído da pena de um folhetinista escolado, acostumado a agitar com seus textos o imaginários dos fluminenses, consiste nas aventuras e agruras de um estudante paulista que se depara, em sua chegada, com uma cidade eivada de parasitas sociais (mendigos, especuladores, cambistas, poetas de baixa categoria, prostitutas), que lhe atormentam a vida e levam-no a detestar o lugar. Depois de se apaixonar por uma moça da cidade (sua prima Júlia), passa a ver tudo diferente, até mesmo a velha mendiga que passa a servir de porta-recados à amada. Verso e reverso.

Cidade e idéia de cidade, esta mudando muito mais rápido do que aquela, ao sabor do olhar que se lança às coisas e pessoas. Metamorfose captada pela observação atenta de um artista, um dos artífices do que era e continua a ser o Rio de Janeiro, cantado em prosa e verso tantas vezes, fotografado e retratado muitas mais, cenário de tantas obras literárias, objeto de desejo de tantos turistas, nacionais e internacionais.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Bem-vindo (a) ao meu blog!

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