Uma coisa é dizer impunemente: “O bar é uma instituição nacional”. E sair acelerado, em busca de um, antes que as mesas se esgotem. Outra é sentir na pele a falta de um bar.
Macau (ex-colônia portuguesa na China, vizinha de Hong Kong). Em todo lugar que se entra é, antes de tudo, servido um chá muito quente, obviamente sem açúcar. O mesmo se dá num – como dizer? bar não é... – estabelecimento comercial semelhante a um bar em sua estrutura e forma de atendimento... Chega-se com os amigos, o indefectível chá é servido, faz-se o pedido: duas Cintra (loira, mas com bigode, como todo português tradicional que se preze). E a gelada chega antes que os copos de chá sejam esvaziados. Uma cena!
Aí a conversa engrena, enquanto se espera as pessoas começarem a chegar para o happy hour. Motonetas daqui, motonetas dali (há milhares por lá, em cada rua), carrões para lá, carrões para cá (dificilmente se pode ver tantos ao mesmo tempo) e nada: chá quente esfriando, cerveja gelada esquentando, atarantamento coletivo sendo revelado em meio às conversas.
Já é tempo de comer alguma coisa, o que passa a ser feito depois de rapidamente atendido o pedido, mas sem qualquer alimento para os olhos. Lá se foram todas as garotas miúdas e de cabelos negros com suas motonetas. As ruas estão desertas. Não dá nem para ficar falando da vida alheia. Todos estão tão longe. A alternativa é o cassino, enorme, no mesmo edifício em que ficam as mulheres de diversas nacionalidades, oferecidas em vitrines.
Que falta faz um bar dos bons – esse latino meio termo entre o sossego do lar (lugar a que se pertence) e a completa libertinagem (terra por se conquistar) – para quem não é anjo nem demônio, acendendo uma vela para cá, outra para lá, sem fanatismos, que ninguém é de ferro.
O bar é, primeiro, um ambiente específico, um lugar. Não pode ser um restaurante, não deve submeter seus freqüentadores à fome ou à gula gastronômica. Também não pode ser uma boate ou night-club, mesmo que o público que para ali se desloca o faça com objetivos muito parecidos: encontros, trocas de olhares, conversas em meio ao burburinho – um faz de conta que esconde, não muito, intenções.
O público do bar deve ser variado, senão o usuário por excelência – aquele que quer uma beberagem, jogar conversa fora e até falar sério sem parecer que o faz, enquanto faz sério o que parece não estar fazendo – fica privado da necessária paisagem humana heterogênea. Mas essa paisagem, ou melhor, essas pessoas que ficam ao redor, vendo e sendo vistas, não podem ser muito ruidosas, o que torna impeditivo o ato de conversar. Entretanto, sem aquele burburinho que uma somatória de muitas conversas produz, o bar não tem a menor graça.
É bom que no bar haja gente para ser vista, para ensejar comentários maldosos e também para provocar uma certa inveja (inveja e maledicência: pecados capitais em miniatura, quando praticados no bar). Bar não é igreja. Depois o freqüentador devoto vai a uma e se confessa, pondo a alma em suficiente leveza para poder comungar. Além disso, é sempre possível pedir “uma para o santo” no início e no fim da sessão pecaminosa.
E a música no bar? Pois é, objeto de controvérsias por aqui. Mas de briga numa casa de fados em Portugal, onde o silêncio é exigido da platéia que sorve o seu porto. Não muito diferente do que acontece numa casa de tango de “los hermanos” portenhos. A quem pertence, enfim, por aqui, o momento da canção: ao intérprete ou ao público?
Bar não é casa de espetáculos, assim, os freqüentadores não são um público propriamente dito. E os cantores e músicos não são intérpretes no sentido tradicional da expressão. Eles – instrumentistas, cantores e ouvintes - são parte de um todo, unidos pelo encanto da música, sem estarem no lugar, entretanto, exatamente para mostrar suas habilidades ou para aprecia-las formalmente. Um mistério que não precisa ser desvendado, senão perde a graça.
Coisa mundana, mas profundamente poética, senão quase religiosa, o bar é uma peça fundamental da cidade latina, oportunizando uma maneira específica de sociabilidade que se recusa a enquadrar-se nos cânones do formal, mas que também não abre mão do respeito a certas tradições. Felizes as cidades que possuem bares tradicionais, dos quais cuidam como de vetustas instituições, não admitindo que venham a desaparecer.
Cidade sem bar é um deserto. Bares sem identidade não fazem mais do que povoar o deserto com cactos sem graça.